domingo, 10 de agosto de 2014

TERCEIRA TRAVESSA DAS PITANGUEIRAS - MINHA PRIMEIRA RUA

Morei nesta rua, a qual localiza-se no bairro Fazenda Grande do Retiro, até os seis anos, depois fui morar na casa da minha avó- no bairro Fazenda Garcia- quando minha mãe faleceu. 
A rua, em questão mudou muito antes não era asfaltada, mas os carros iam até a porta, as casas estão mais bonitas, o local ficou muito valorizado, porém os moradores sofrem com a falta de equipamentos para o lazer das crianças,,jovens e adultos (falta uma quadra poliesportiva),
Minha avó contava que meu avô comprou um terreno extenso,o qual começava na Fazenda Grande e terminava no Bom Juá,  mas como ele não construiu de imediato foram invadindo, sobrando apenas a metragem localizada na 3ª Travessa das Pitangueiras, onde meus pais construiram a casa onde morei até os seis anos.  

CONTEXTO HISTÓRICO
As terras brasileiras, que pertenciam a Portugal, eram invadidas por povos estrangeiros que chegavam por mar e havia também constantes lutas entre os índios- os verdadeiros donos da terra - e os colonos.
Para resolver esses problemas,D. João III criou um Governo Geral para dar ajuda, segurança, promover a ordem, justiça e levar a fé católica às povoações que existiam, livrando-as do ataque dos piratas e dos índios; devendo ainda incentivar o aparecimento de novas povoações.
A frota chegou à Bahia de Todos os Santos e ancorou no Porto da Barra, no dia 29 de março de 1549. A primeira preocupação do governador geral- Tomé de Souza- foi escolher o local para construir a cidade, seguindo as recomendações do rei D. João III: construir uma cidade-fortaleza, em local seguro, próximo ao mar. Assim, auxiliado por Luiz Dias, mestre do "risco e pedrarias", foi feito o traçado inicial da cidade no alto da Baía de Todos os santos, chamada Cidade Real do salvador, nome escolhido pelo rei para a capital do Brasil-Colõnia.
Durante o período colonial as culturas agrícolas  da cana-de -açúcar, algodão,cacau e fumo foram desenvolvidas na Bahia.
As primeiras cabeças de gado bovino chegaram à Bahia em 1549, trazidas por Tomé de Souza.
A criação de bovinos desenvolveu-se inicialmente, junto aos engenhos, com o objetivo de servir como transporte, força de trabalho nas moendas e alimento para seus moradores.
Com a expansão constante das áreas de cultivo de cana, o gado foi perdendo seu lugar junto aos engenhos. além disso, a população aumentava e a criação de gado foi se tornando insuficiente para alimentar a todos.A saída era levar a criação de gado para o interior, até então inexplorado.
As boiadas saíam do litoral seguindo os cursos dos rios Paraguaçu,São francisco,Vasa-barris e Itapicuru até alcançarem o sertão da Chapada Diamantina e das atuais mesorregiões Nordeste baiano e vale Sanfranciscano da Bahia.
A criação de gado expandiu-se tanto pelo pelo sertão sanfranciscano que o rio São Francisco ficou conhecido como o  "rio dos currais".
Naquela época não existiam estradas, e os colonos viajavam a pé, guiando as boiadas, abrindo caminhos, enfrentando obstáculos naturais como: vegetação, elevações do terreno, rios, animais selvagens e venenosos.
 “A partir da Independência, e quando se organizaram as províncias com o novo regime, começam os seus Presidentes a preocupar-se com a abertura de estradas reais, procurando facilitar o tráfego da Capital com os principais centros agrícolas e produtores, e destes entre si. É nessa oportunidade que se constrói a Estrada das Boiadas, entre a Capital e Feira de Santana, cujas obras foram iniciadas em 1847, ficando concluída em 1859. ”(Pág.IX-7)
A Estrada das Boiadas, apesar de ser uma rota já existente e, conhecida pelos criadores e condutores de gado desde o século XVIII, só recebeu atenção especial do governo provincial em meados do século XIX, quando foram iniciados os trabalhos de alargamento e nivelamento, com a finalidade de facilitar o trânsito para as boiadas e para os viajantes que vinham do sertão.

 “Em 1910 a prefeitura construiu a estrada de Salvador à Água Comprida, sobre a antiga estrada das Boiadas (Simas Filho, 1978: IX: 7).Em 1919 foi inaugurado o trecho ligando o Largo do Tanque a Pirajá(Scheinouwitz,1998:200)”

 No final do século XIX, a cidade do Salvador era um dos centros-sede político-administrativa, era capital; o escoamento da produção agromercantil realizava-se pelo porto de Salvador. E o comércio interno estava em expansão; a sociedade era agrária, latifundiária, escravista e de base patriarcal.
Salvador foi a primeira cidade baiana a implantar o serviço de transporte coletivo urbano.Em 1839 a Câmara Municipal decidiu criar as carruagens públicas.
Em 1871 foi inaugurada a primeira linha de bondes puxados por animais;
Em 1897 surgiram os bondes elétricos, modernos e rápidos para a época, ficaram em circulação até cerca de 1952, quando foram substituídos pelos ônibus. Os primeiros ônibus começaram a ser utilizados em 1929.


HISTÓRICO DO BAIRRO
O bairro recebeu esse nome por ser uma fazenda - pertencia ao Sr.Justino, que em 1940 decidiu arrendar a sua propriedade e vender pequenos lotes para pessoas interessadas em morar na região-, sua área total é de 177,23ha, está localizado na zona norte da cidade, é limitado ao Norte- São Caetano; ao Sul - Largo do Retiro; Leste - BR-324 e ao Oeste-Av. San Martin e Suburbana. Divide-se em três núcleos principais, além do núcleo central: Fonte do Capim; Bom Juá: Jaqueira do Carneiro.
Segundo informações contidas no relatório da Coordenação de Desenvolvimento Social-CDS -Informações Sistematizadas dos bairros de baixa Renda Vol. I, a ocupação dessas terras deu-se através de invasão, existindo, contudo alguns casos de loteamento da Prefeitura Municipal de Salvador (funcionários públicos-ASPLUR). Conjuntos Residenciais. (Bernardo Spector e Melo Morais) e terrenos rendeiros.
Segundo a Wikipédia, é um morro cortado por uma rua de aproximadamente 7 km, recebeu o nome do intelectual Alexandre José Melo Morais Filho; em 1901 os senhores Gama e Antonio Machado da Silva adquiriram uma grande quantidade de terras, que iniciava na Melo Morais Filho e terminava na Avenida San Martin.

 
 ENTREVISTA
Entrevistei no dia 28/07 a Srª Rosa Lima,moradora antiga da 1ª Travessa das Pitangueiras. Perguntei se conhecia a origem do nome da rua. Informou-me que  quando chegou ao bairro em 1952, as travessas já tinham essa denominação. Ela acha que recebeu o nome devido a grande quantidade de pitangueiras. Ainda não tinha a Empresa Gráfica, a creche, o posto médico e nem a escola no fim de linha - no local funcionava uma granja, tinha muitas pitangueiras, mato, roças e poucas casas.
As poucas casas existentes na rua eram construídas com palha, varas, barro-taipa); muitas roças; muito mato;  muitas árvores frutíferas - mangueiras, abacateiros, cajueiros,  coqueiros, pitangueiras; criação de porcos próxima ao Retiro-pertencia ao dr. Rubens; muito vagalume, cobra e calango.
Relatou que não tinha luz elétrica, água encanada- para conseguir água precisava deslocar-se até uma fonte - fonte da bica - existente no final da 1ª travessa; caso precisasse comprar carvão, gás, farinha, carne ia à feira de Água de Meninos ou Sete Portas ou então dirigia-se até o Largo do Tanque, Retiro ou Alto do Peru. Com o advento da Petrobrás o foi povoado e urbanizado.
Contou também que conheceu o sr. Justino- ele morava na rua de cima, o matadouro localizava-se onde é hoje a unidade do SESI, no Retiro - onde pegava o bonde.

 Segundo informações de dona Rosa, o comércio está bem diversificado, tem estabelecimentos comercias de pequeno e médio porte, formal e informal - mine mercados, armarinhos, farmácias, padarias, floricultura, barracas de frutas, casas de material de construção, açougue, boutique, locadora de DVD, escolas particulares, lanchonetes.





  
Referências
A Grande Salvador - Posse e Uso da Terra Projetos Urbanísticos Integrados (página IX - 7)

Coordenação de Desenvolvimento Social -CDS -Informações Sistematizadas dos Bairros de Baixa Renda Volume I – Prefeitura Municipal de Salvador – Fundação Gregório de Matos;
 
 DANTAS, ZÉLIA MARIA WANDERLEY, HISTORIANDO: história e geografia: o município 2 / Zélia Maria Wanderley Dantes - Recife: Edições bagaço, 1999.

 DIEZ, ALBANI GALO, 1993 - Segredos da Bahia: historia / Albani Galo Diez - São Paulo: FTD, 2001
VASCONCELOS, DE ALMEIDA PEDRO Salvador: Transformações e Permanências (1549-1999)-Página 206



Acesso em 31. julho 2014

 WIKIPÉDIA












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10 comentários:

  1. Olá Rosane, interessante conhecer a origem do nome do bairro Fazenda Grande do Retiro e como ocorreu a ocupação dessas terras. Olhe a Estrada das boiadas como "rota de comunicação" Parabéns Rose!! Conhecer a origem e formação dos bairros de Salvador é conhecer as nossas origens.

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  2. Oi Rose

    A Srª Rosa Lima tem razão em fazer a citação correlacionando com as pitangueiras, pois tenho uma conhecida na região que faz o mesmo relato. Lendo o teu trabalho fico a imaginar o delicioso cheiro das pitangas naquela região.

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  3. Os relatos de moradores antigos nos levam a refletir sobre a riqueza dessas pessoas, que nos trazem tanto valor e cultura, parabéns pelo bairro e pelo blogger.

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  4. Parabéns Rose!! sua pesquisa é um exemplo de que a história e a memória são importantes para compreensão de um contexto maior. Através do contexto histórico e do relato da moradora, pode-se notar os caminhos percorridos entre o passado e o presente, e compreender o desenvolvimento econômico do bairro.

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  5. Esta sensacional Rose, resgatar fatos da nossa história através da memória de pessoas que viveram isso, é fantastico, você fez isso de forma brilhante, parabéns.

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  6. Fico contente em conhecer mais sobre a história de Fazenda Grande, quando meus pais vieram do interior (Ipecaetá), a primeira casa deles em Salvador foi lá. Eles diziam que na época não havia muita infraestrutura, eram muitas invasões e foi em uma dessas que eles moraram à princípio. Eles relatam que o que mais sentem falta era a boa vizinhança. Hoje com certeza, irei ler para eles sobre seu blog e eles vão gostar de saber a origem, o contexto e o bairro agora como está. Parabéns!

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  7. É com um trabalho como esse que percebemos o quanto desconhecemos da nossa história.

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    1. Obrigada meninas! O retorno de vocês foi muito importante.

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  8. Fico contente com sua iniciativa Rose, as vezes pensamos que os nossos antepassados ficaram lá no passado, mas esse resgate memorial foi muito interessante. Não sabia que as primeiras cabeças de gado foram trazidas por Tomé de Souza. Brilhante trabalho.

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  9. Parabéns Rosane, sua pesquisa demonstra o quanto você se aprofundou nessa pesquisa para nos trazer tantos conteúdos históricos desse bairro que poucas vezes eu ouvi falar. Agora, através desse seu estudo, conheci mais uma história dos bairros de Salvador e sua importância para a Bahia e para o Brasil. Parabéns, ótimo seu trabalho de pesquisa histórica.

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